Exclusive Os Cabides: o segredo de Coisas Estranhas está nas escolhas que ninguém mais fez
Cabides faz a coisa mais difícil do indie brasileiro: música pequena que fica.
A primeira vez que os vi ao vivo, entraram num bar de Floripa com adesivos colados em parede, vitrine e balcão e tocaram Lucy na minha cara. Era música fácil de ouvir, sem segredo. e impossível de esquecer. Isso foi em 2020, e até hoje a fórmula não muda. O que muda é o tamanho do que ela carrega.
Roubaram Tudo (2020, independente) é o disco onde a fórmula nasce. Nove faixas curtas, gravadas no Ouié Estúdio, com a calma de quem ainda está aprendendo a usar o estúdio inteiro. Gato Preto é o emblema desse momento: o refrão "Gato preto eu queria ser / Gato preto e fugir de você" monta uma imagem banal e a transforma em mantra. É a aposta inteira da banda condensada em duas linhas. uma cena qualquer, dita do jeito mais reto possível, e o leitor (ou o ouvinte) já não tira mais da cabeça.
Coisas Estranhas (2024, independente) é o disco em que essa aposta encontra a forma final. Logo na faixa-título de abertura, o quinteto comprime tudo o que vai vir: melodia com cara de jingle de TV antiga, guitarra desafinada de propósito, refrão que entra antes da hora. O título não é piada. O disco trata, faixa por faixa, de imagens estranhas. não as estranhas de quem inventa, as estranhas de quem olha bem. Uma luminária no quarto. Uma pilha perdida na casa. Uma lagartixa na sala. Num momento em que o indie brasileiro ou imita os anos 2000 ou tenta ser Pavement outra vez, Cabides escolheu olhar pra dentro de casa.
A escada das faixas mostra o método. Em Luminária de Lava, faixa três, o verso "A única coisa que eu posso te dar é uma luminária de lava" sintetiza a aposta: a guitarra inspirada na Alison do Slowdive desenha o gesto, e a ironia na voz de Antônio dos Anjos carrega a frase. Já em Pilha Eletrônica, do meio do disco, é o ritmo entrecortado que entrega a feição mais brincante. e o clipe em estilo karaokê, com bastidores de turnê, fecha o sentido visual. Em Lagartixa Tropical, ao lado de As Pulgas Rock Band, a banda topa virar piada de dois minutos sem perder o ofício. E na faixa-título o disco se anuncia inteiro, antes mesmo de o ouvinte saber em quê tá entrando.
O disco amarga, na metade final, uma queda discreta de tensão. Depois de Pilha Eletrônica, as últimas faixas resolvem em vez de provocar. Não é defeito que afunda o trabalho. é o lembrete de que mesmo um disco redondo escolhe entre desenhar e arrumar, e Cabides escolheu arrumar perto do fim. É o tipo de queda que só dói quando o resto é tão bom.
Em 11 de abril de 2026, no Desgosto, a banda fechou a turnê do Coisas Estranhas com a Terraplana. e em maio de 2026 sai o EP novo, seis faixas gravadas ao vivo. Coisas Estranhas já não é mais o presente da Cabides. Mas vai ser, por muito tempo, o disco que a galera coloca quando precisa lembrar de que jeito a cena de Floripa ficou esquisita do bem em 2024. A luminária de lava continua acesa.
A formação
- João Paulo Pretto. vocais e guitarra, fundador, motor criativo
- Antônio dos Anjos. vocais e percussão
- Eduardo Possa. guitarra
- Maitê Fontalva. baixo e vocais
- Carolina Werutsky. bateria